O caso Nardoni e a justiça do populacho
Publicado por Luciano Oliveira em 12.05.2008
Impossível conter a indignação. E submeter a linguagem aos bons modos. Esse caso Nardoni, se alguma prova ainda era necessária, está mostrando que a sociedade brasileira desceu a níveis de baixeza incompatíveis com formas civilizadas de convivência. Inclusive na hora de punir! Pois é, acertaram: minha indignação acima não é contra o crime bárbaro que vitimou a pequena Isabela. É contra esse circo de horrores montado em torno dos acusados, onde se reúnem, numa simbiose perfeita, o nosso pior jornalismo com o nosso populacho mais escrachado!
Para evitar mal entendidos, deixe-me reafirmar o que já está dito acima com todas as letras: Isabela foi vítima de um crime bárbaro. Jogar uma criança de seis anos, provavelmente agonizante, pela janela de um sexto andar, é uma dessas coisas que nos deixam sem saber o que dizer. E que exigem uma cabal reprovação moral e a punição mais severa. Esta, todavia, até para diferenciar a sociedade da barbárie, para preservar a primeira da contaminação da segunda, deve ser administrada com toda a dignidade própria à liturgia da justiça. Fora isso, regredimos a uma justiça de apedrejadores.
As dúvidas a essa altura são impossíveis. Aquilo que ninguém gostaria de admitir ─ que um pai empurrou a filha semimorta no vazio para esconder uma agressão homicida ─ impõe-se com base numa enxurrada de provas técnicas capazes de convencer o mais incrédulo dos homens. A insistência do casal em manter uma história surrealista só depõe contra eles. Louve-se o trabalho da polícia científica de São Paulo, a única coisa decente nessa história escabrosa. Fossem outros os tempos, ou fossem outros os acusados, e a polícia judiciária já teria obtido uma confissão completa com base na metodologia tradicional entre nós: a porrada. Para quem ainda tem dúvidas de que ela pode trabalhar de maneira civilizada, respeitando o devido processo legal, o caso é uma lição e tanto. Uma vez concluída essa parte, porém, a coisa tem desandado.
Temos assistido pela televisão, ao vivo, a toda espécie de perversão. Da sofisticada GloboNews aos programas policiais dos canais abertos, ávidos de carniça, todos se comprazem em mostrar imagens que poluem a noção de uma justiça civilizada. Réus sendo algemados na garagem do prédio onde moram antes de entrarem no camburão. Para quê? Qual o sentido de imobilizar pessoas já imobilizadas pela presença de meia dúzia de musculosos agentes da lei e pelo pavor de uma multidão vociferante do lado de fora? Boçalidade da parte da polícia, sadismo reprimido do lado dos espectadores. Reprimido mas bem servido por imagens mostrando o papelão onde dormiu Ana Carolina Nardoni ─ a qual, de resto, num gesto de dignidade, recusou-se a dormir em cima de um colchonete imundo.
Chocaram-me particularmente as insistentes imagens dessa patética criatura, algemada por trás e chorando, sendo transportada numa viatura com janelas transparentes pela polícia do estado de São Paulo, governado por José Serra, oferecida em espetáculo público pelas câmeras da televisão brasileira aos bons cidadãos de todo o país confortavelmente instalados no sofá das suas casas. Lembrei-me imediatamente de uma reflexão do escritor católico François Mauriac, prêmio Nobel de literatura de 1952, que deu uma expressiva forma literária ao paradoxo dessa justiça do populacho, ao descrever um assassino arrastado na rua, perseguido pela multidão: bastou que uma mulher cuspisse na sua cara, “e nesse mesmo instante ele tomou a aparência do Cristo.”
Não se trata, evidentemente ─ meu Deus! Será necessário dizê-lo? ─ de idealizar criminosos, mas simplesmente de lembrar que uma opinião pública que se compraz em exibições desse tipo rebaixa-se aos crimes que condena. Esse é o dilema de toda paródia de justiça como essa. O mais condenável dos assassinos, ao ser imobilizado, torna-se um corpo inerte contra o qual qualquer ação violenta não prevista em lei é uma covardia. Ponto final. Como disse certa feita o imenso escritor brasileiro Guimarães Rosa, “o que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.” Ponto final de novo!
Luciano Oliveira: Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco
Existem duas coisas que eu não aguento mais ver na televisão: os casos de dengue e o caso Isabella. Com destaque especial ao que a mídia vem fazendo neste último. Fico cada vez mais indignado com a inescrupulosidade da míida televisiva. Já não bastava terem colocado a Suzana (Rich… alguma coisa) chorando, com carinha de anjo, roupinha de criança, falando sobre seu caso. Agora, colocaram o casal demonstrando um sinismo estupefante (em algumas ocasiões o varão não aguentava e ria), tentando converser as pessoas de que um fantasma teria entreado no apartamento e atirado a menina pela janela.
Deixando a emoçao de lado, o fato é que este casal já está julgado e condenado. Pois, irão a juri popular e não acredito que exista alguém no Brasil (que tenha isenção de ânimo obviamente) que não esteja absolutamente convencido de sua culpa. A mídia construiu esta parcialidade, julgou-os, condenou, e agora passa esta “verdade” para nós bombardeando-nos incessantemente com os mínimos detalhes de tudo.
Eu, se fosse jurado, não teria como ser imparcial num julgamento como estes. Alguém conseguiria?
Gostaria apenas de registrar que como mais uma brasileira vivente, num país com tantas necessidades mais que prementes para a maioria sobrevivente da miséria, aculturação, desassistência cidadã e corrupção voraz (incluindo a judiciária), sinto-me gratificada por ler um artigo com tamanha lucidez e veracidade. Mesmo reconhecendo a gravidade do caso em tela, será que a mídia e a sociedade andam definhadas de assunto, ou é terapia geral comunitária que anda em falta mesmo??
O conformismo regorzija-se na miséria a qual você anuncia e se inercia em debelá-la de fato. A nossa sociedade brasileira é o fiel retrato preto e branco da hipocrisia vampirizante que se delicia com as nuances do vermelho-sangue(vivo ou morto). Barbie no Bar da Barbárie é a preferência nacional! Estamos espiando?!! Sós?! Até quando?
Obrigada prof. pelo artigo pulsante.