Nem sempre detesto Diogo Mainardi… - A propósito desse Parque Dona Lindu
Publicado por Luciano Oliveira em 22.10.2007
Para Pepinha, que morava na praça de Itabaiana, no dia de sua morte.
Normalmente não levo Diogo Mainardi a sério. Mas termino lendo-o. Ora me divirto, ora tenho raiva, ora ─ vejam só! ─, quando ele desce a língua de trapo em cima dos nossos políticos, exercito uma pequena catarse por seu intermédio. Lendo nos últimos dias as mais recente novas sobre esse tal, que vai se tornando famigerado, Parque Dona Lindu, tive vontade de ler um artigo do bad boy a respeito. Por quê?
Porque moro em Piedade, perto do terreno destinado a homenagear a mãe do presidente Lula, e sempre achei que aquele terreno baldio poderia tornar-se uma espécie de Parque da Jaqueira nosso. Nada muito complicado nem muito caro. Lembram daquela coleção de figurinhas “Amar é…”? Pois bem, adaptei-o para as circunstâncias: “Ser Feliz é…” Ser feliz é ter perto de casa um parque com muitas árvores, uma pista para caminhar, alguns bebedouros com água potável, dois sanitários decentes, brinquedos para crianças, bancos para namorados e mesinhas com tabuleiro na cobertura para os aposentados jogar damas. Como luxo extremo, caso sobrasse dinheiro, um pequeno lago com alguns patinhos. Quanto custaria essa pequena visão do paraíso?
Não tenho a menor idéia. Em todo caso, certamente menos, infinitamente menos do que a indecente cifra de 29 milhões que, segundo a mais recente notícia que leio, vai custar aos cofres públicos a insistência do Senhor Alcaide do Recife em fazer um parque com projeto de Niemeyer e espaço para megashows.
Para quê, pelo amor de Deus? Sei bem que o Brasil, particularmente o Recife e adjacências, tornaram-se uma sociedade de festa permanente. Num mundo em que a economia tradicional absorve cada vez menos mão de obra, é isso mesmo. Mas será que estão faltando espaços para essa nova economia do barulho? Duvido. E a homenagem a Niemeyer? Será que um sujeito conhecido no mundo inteiro por ser o autor de uma das mais belas arquiteturas do século XX ainda precisa de lisonja? Duvido também. Os lisonjeados seríamos então nós? De minha parte, dessa glória abro mão, e acho que todos os meus concidadãos consideram o capricho muito caro: 29 milhões.
Vinte e nove milhões! Escrevo a cifra por extenso para ver se, assim, tenho uma noção mais exata do que ela significa. Inútil! Professor que sou, mesmo universitário, tudo isso para mim soa meio astronômico. Mas me ponho a devanear. Vinte e nove milhões! O que isso representa? Vinte e nove apartamentos à beira-mar em Boa Viagem? Volto à realidade e a um senso mínimo de decência, nesse país de tantas iniqüidades, e me ponho a fazer cálculos eticamente mais responsáveis. Vinte e nove milhões! O que isso vale? Um novo hospital para desafogar o inferno das “urgências” do Hospital da Restauração? Duzentas e noventa casas populares? O esgotamento sanitário do Coque? Um salário decente ─ nem que seja por um mês ─ para os médicos da rede pública? Ou para os professores da rede municipal? Ou, por dez anos, um IML onde não falte água para se fazer uma perícia num garoto vítima de estupro, segundo li nos jornais esses dias?…
Não sei. Só sei que neste momento preciso gostaria que Diogo Mainardi ─ patacoadas à parte ─ morasse em Piedade e desejasse ter perto de sua casa um parque público onde pudesse simplesmente levar seus filhos para passear e brincar ─ se dinheiro sobrasse, com os patinhos…
Luciano Oliveira: Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco
Até hoje, não conheci nenhum recifense que tenha gostado dessa idéia esdrúxula de construir um espaço para megashows na área do parque. Nenhum!
Além do valor exorbitante da obra e da ampla recusa popular em relação ao projeto, ainda por cima resolveram fazer essa bajulação desnecessária do Presidente da República por meio desse nome “Dona Lindu”, que não representa nada para a cidade de Recife.
Onde está o orçamento participativo de João Paulo e João da Costa, para ouvir a população sobre esse empreendimento?
Sinceramente, essa é uma das idéias mais estapafúrdias que já ouvi em minha vida. E o que me choca é que o digníssimo prefeito vai levá-la adiante mesmo sabendo que a população da cidade do Recife é completamente contra. Isso está cheirando muito mal (e olhe que as obras nem começaram). Pergunto-me por que o prefeito não está interessado em um parque mais agradável e bem mais barato, o que parece ser o desejo da população. Será que ele é um grande admirador da obra de Niemeyer ou há mais por detrás da história toda? É bom ficarmos de olho…
Professor Luciano, fantástico seu artigo. Não moro em Piedade, mas seu texto resume bem meus sentimentos relacionados ao parque do prefeito. Afinal, porque insistir tanto na construção de uma obra faraônica que contraria o interesse da sociedade local? Existe algum recifense, além do Prefeito e seus Secretários, que concorda com esse empreendimento?
Sempre tive certo respeito por João Paulo e acho que fez obras importantes na Cidade do Recife, mas não consigo compreender o porquê desse Parque Dona Lindu. Será que nossa cidade não tem problemas, cujas soluções devem ser prioritárias? Será que construir um parque de vinte e nove MILHÕES de reais é cuidar das pessoas?? Por que não fazer, simplesmente, um parque similar ao da Jaqueira?
Como bem salientou Toscano, será que há algo mais nessa história toda? Pois é, essa persistência infeliz do prefeito só gera indagação e indignação.
Talvez o prefeito seja poeta. Afinal, “parque Dona Lindu” é poético, não? Talvez nem isso….