Marx no país da piada pronta
Publicado por Luciano Oliveira em 8.10.2007
Tomo emprestado ao humorista da Folha de S. Paulo, o Macaco Simão, a expressão que ele inventou para se referir ao Brasil: o “país da piada pronta”. E o que isso tem a ver com Marx? Já explico.
Pode-se dizer que há dois Marx. De um lado, o inspirador da “ditadura do proletariado”. Este, por causa do fracasso que foi a experiência socialista, faleceu. Mas há um outro Marx, o autor de um instrumental sociológico para se estudar as sociedades capitalistas. Esse Marx entrou na UTI em boa parte do mundo acadêmico, mas não exalou o último suspiro. De vez em quando, tem uma recuperação. A minha hipótese é a de que, aqui pelo Brasil, ainda tem muito futuro pela frente.
Pensador do século XIX, Marx foi contemporâneo da revolução industrial na Inglaterra vitoriana, onde crianças de 12 anos chegavam a trabalhar 14 horas por dia em sinistras fábricas e no fundo de minas de carvão. É a realidade retratada em romances como o Oliver Twist de Charles Dickens. Pois bem. Ao longo dos séculos XIX e XX, essa realidade foi mitigada nos países capitalistas centrais por reformas que frearam a voracidade do capital e puseram determinados bens ao abrigo da pura exploração econômica. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a saúde e a educação, que se tornaram, pelo menos no que têm de básico, serviços públicos assegurados pelo Estado ao conjunto da população. Já aqui…
Tranqüilize-se o enfastiado leitor domingueiro. Não vou falar das indecentes filas do SUS ou das escolas públicas para onde nem os militantes de esquerda mandam seus filhos. Tudo isso é óbvio e batido. Quero falar de outro fenômeno: a escancarada mercantilização da saúde e da educação para quem pode pagar por esses serviços no Brasil. É aqui onde entra o Marx sociólogo.
Esse Marx ressuscitou na minha frente um dia desses, enquanto eu olhava um out-door e tive o que os sociólogos chamam de insight! Era um grupo de jovens alegres e remexendo-se como se estivessem dançando, não faltando uma gostosinha com os braços estendidos para o público e as mãozinhas dobradas para dentro como se estivesse chamando. Lembram aquele comercial da Caixa ─ “Vem pra Caixa você também”? Pois a moça era o retrato da exclamação final: “Vem!” Parecia a propaganda de um show dessa sociedade de festa permanente em que nos tornamos, menos o comercial de uma instituição de ensino superior. Pois era!
O insight virou hipótese. Ou melhor, remeteu-me a uma hipótese de Marx sobre o processo geral de mercantilização que se verifica nas sociedades capitalistas, onde “todas as atividades até então consideradas dignas de veneração e respeito” são despojadas de sua “auréola”, como está escrito no Manifesto Comunista. Relembrando uma bela expressão que o escritor Marshall Berman usou como título de um livro famoso, Tudo que é sólido desmancha no ar. Com a hipótese na cabeça, comecei a olhar ao redor.
Foi quando notei um segundo out-door, onde havia também um bando de pessoas felizes. Mas não saltitavam, não eram jovens e estavam vestidos com uma espécie de bata, tendo na cabeça uma espécie de touca. Parecia um time de padeiros fazendo um comercial de macarrão. Mas a bata não era branca, era esverdeada. Foi só chegando perto que notei que era um grupo de médicos fazendo propaganda de um hospital!
Aí não parei mais. Comecei a observar comercias de televisão vendendo saúde e educação, bens que, noutras terras, estão protegidos da fantasia despudorada do mundo da publicidade. Uma faculdade, para tirar “clientes” dos concorrentes, anuncia a gratuidade na inscrição ao vestibular para alunos de outras escolas. Num hospital, um casal dá entrada sorrindo, como se estivesse se hospedando num hotel em Fernando de Noronha… E por aí vai.
E foi assim que, de pérola em pérola, cheguei a uma fórmula similar à do Macaco Simão: o Brasil é o país do marxismo pronto!
Luciano Oliveira
Professor do Deptº de Ciências Sociais da UFPE
E-mail: jlgo@hotlink.com.br
Luciano Oliveira: Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco
Muito bom texto, professor! Não sei o que é pior: a mercantilização ou o escasso mercado consumidor, disputado a tapas.
Luciano sempre com seu humor refinado traz um excelente texto sobre um tema que salta aos olhos - o processo de mercantilização de saúde e educação - mas que raras vezes, lamentavelmente, causa-nos espanto digno de insights, creio eu em virtude de já estarmos tão habituados em sermos tratados de modo a maximizar o fato de sermos um mercado consumidor.
Professor, o senhor tem de ver as propagandas de cemitérios, como o “Morada da Paz”: parece que estão vendendo um sítio no interior… Resta rir da piada pronta e se render aos marxismos prontos. Abraço.
Isto é tudo que precisamos ouvir. Sábias análises