Lições de Termópilas
Publicado por Rafael Cacau em 24.04.2007
Está em cartaz em todo território nacional o épico “300”, de Zack Snyder, com Gerard Butler no papel do rei espartano Leônidas e o brasileiro Rodrigo Santoro como o rei persa Xerxes. O filme é uma adaptação da história em quadrinhos de Frank Miller (SinCity) e Lynn Varley, que narra a conhecida Batalha de Termópilas, em que, segundo Heródoto (o pai da História), 300 espartanos (e outros gregos) enfrentaram algo em torno de 100.000 persas. Nesse filme, há uma determinada passagem que merece sua devida atenção.
Durante os preparativos para a batalha, o rei Leônidas encontra Efialtes, um espartano sem a perfeição corporal exigida e que não foi devidamente sacrificado pelos seus pais Efialtes solicita permissão para participar da batalha e, de modo surpreendente, demonstra sua real habilidade com as lanças. Embora impressionado, o rei Leônidas ordena: “levante seu escudo o mais alto possível”. A sua anormalidade impede de executar o pedido, então o rei espartano continua: “Nós lutamos como uma unidade especial e impenetrável. Essa é a fonte do nosso poder. Cada espartano protege o homem à sua esquerda, da coxa ao pescoço, com seu escudo… Uma única falha e a falange se fragmenta.” (para ver como funciona a falange espartana, clique aqui).
As lições de Leônidas se aplicam perfeitamente à realidade da América Latina. Metaforicamente, a região está com várias falhas em sua falange. Os acontecimentos recentes têm contribuído apenas para o enfraquecimento da integração latino-americana. As críticas irracionais de Hugo Chávez e Fidel Castro à política bioenergética brasileira (antes de Bush fechar acordos internacionais com o Brasil, o próprio Chávez afirmava seu interesse nesta inovação tecnológica), bem como a contínua postura irredutível de Evo Morales em negociar com o Brasil o preço da distribuição do gás natural ou até mesmo o valor venal da sede da Petrobrás na Bolívia, são os exemplos maiores.
É notória a necessidade de integração entre os países sul-americanos. Mas não da integração formal, de assinaturas de protocolos ou tratados, e sim de uma atitude de cooperação entre as nações irmãs para a negociação conjunta nas rodadas de comércio. A disputa intra-regional em nada contribui para a América Latina ganhar seu espaço devido (e mais que merecido) no cenário de mercados internacionalizados.
Para os que pensam como utópico esse projeto, que se tome o exemplo da União Européia. Os países-membros, que durante grande parte da sua história estiveram em guerras, agora dão verdadeiramente lições de cooperação e integração regional. Após as comemorações dos 50 anos do Tratado de Roma (um dos tratados que deram inicio à União Européia), o bloco europeu apresenta visivelmente mais conquistas que derrotas.
A História tem como objetivo investigar e analisar os fatos humanos com a finalidade de produzir informações úteis no presente e assim contribuir na construção do futuro. Eis aí uma boa lição que os chefes de Estado da América do Sul deveriam (re)aprender.
Rafael Cacau: Advogado; bacharel em direto pela Faculdade de Direito do Recife (UFPE); ex-militante estudantil (DA, ex-presidente do DCE/UFPE); e membro do Grupo de Pesquisa "Integração regional, globalização e Direito Internacional" vinculado a CAPES/CNPq
Caro Cacau,
Pelo título, pensava que seu texto era uma crítica sobre o filme, hehe. Só agora vi que tratava de política internacional.
De fato, a América do Sul tem passado por alguns desentendimentos nada construtivos. Mas é preciso levar em conta que os processos de integração não ocorrem sem pequenos enfrentamentos, resistências, marchas e contra-marchas.
De maneira geral, acho que houve mais avanços do que retrocessos nos últimos anos. Já se fala agora em moeda única, em universidade do Mercosul, em gasoduto ligando toda a região, em Banco do Sul e outras medidas em direção à integração.
Os passos estão sendo dados, ainda que haja tropeços aqui e acolá.
Cacoso,
Dando seguimento a sua analogia, quem seria o inimigo dessa falange? Quem seria o Xerxes atual? Quem seria Leônidas? Tem de levar em conta não só o entrosamento dos membros da falange mas a tática do adversário. É latente a postura de Bush Jr. em sua vinda à América do Sul - alterar os ânimos de Evo Morales e Hugo Chávez, entrar na briga pela simpatia dos mandatários sul-americanos fazendo também uso de benesses(o que Chávez faz e muito…), diminuir a dependência de todos do petróleo venezuelano e, claro, ganhar uma graninha por fora, como fez no Iraque. Natural, então, a postura de Chavez e Fidel em relação a isso. Pode não ter sido a melhor, mas foi pláusivel; pode ter sido inoportuna, mas não foi inconsequente. Como disso Dub, com rusgas, mas - acredito - sem maiores consequências.
Cacoso,
Tomando emprestado sua analogia, quem seria o Xerxes atual? Quem seria Leônidas? Quem representa os persas? Que força representa Esparta? Na avaliação dos possíveis desdobramentos de uma batalha não só pode levar em conta o entrosamento dos membros da falange mas a tática do adversário.
É latente as segundas, terceiras etc intenções de Bush Jr. em sua vinda a essas paragens: alterar o ânimo do seu adversário, Hugo Chávez; entrar na briga pela simpatia dos mandatários sul-americanos oferecendo muitas benesses (algo que o general de farda rubra o faz e muito); promover alternativas para que venha depender menos do petróleo venezuelano; e, claro, como não podia deixar de ser, ganhar uma graninha por fora, por meio de investimentos de parentes e aliados no negócio da produção de cana, algo semelhante ao que foi feito no Iraque e no Afeganistão.
E como Hugo Chavez e Fidel não nasceram ontem (principalmente esse último, já muito idoso), levantaram a voz. Pode ter sido reação desarrazoada, mas plausível; pode ter sido inoportuna, mas não inconsequente. Como dito por Dub, rusgas - acredito - sem maiores consequências. Tanto o é, que Chávez amansou a voz na Cúpula Energética.