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Divagações sobre o meio

Publicado por Rafael Dubeux em 21.01.2008

Os naturalistas não estavam inteiramente errados ao realçar o determinismo do meio sobre o comportamento das pessoas nele inseridos. Há mecanismos ainda não revelados que interferem de maneira silenciosa e incisiva sobre a consciência e as atitudes de cada um.

Aloísio Azevedo, nosso principal expoente naturalista, denunciou em “O Cortiço” a sordidez da sociedade brasileira de fins do século XIX, em que um grupo privilegiado buscava mais e mais dinheiro e poder, preocupado com seu próprio umbigo, e simultaneamente observava com tolerância a miséria do restante da população. Esse cenário gerava quase que automaticamente o comportamento de um grupo e de outro.

Sobre o personagem João Romão, por exemplo, um português de origem humilde que se tornou um comerciante, o autor narra que: “Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visam o interesse pecuniário. Das suas hortas colhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que por maus ninguém compraria…” Diferente foi a trajetória do personagem Jerônimo, também português, que, apaixonado por uma mulata, foi morar no cortiço e, sofrendo as influência do local, “abrasileirou-se”. Sobre as influências do meio em Jerônimo, Azevedo diz: “Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia-a-dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos… A vida americana e a natureza do Brasil patentearam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores…, esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição…, tornava-se liberal, imprevidente e fraco, mais amigo de gastar que de guardar…”

Lembro ainda da análise de Hannah Arendt a respeito da banalidade do mal no comportamento do integrante do governo nazista Adolf Eichmann, responsável pelos campos de concentração. Em seus depoimentos após a queda do regime hitlerista, Eichmann mostrara-se uma pessoa frágil, comum, sem traços de anti-semitismo. Mas foi esse delicado cidadão cumpridor de suas obrigações que praticou alguns dos atos mais tenebrosos do holocausto. Para Arendt, nisso consistia a banalidade do mal: Eichmann nada mais fizera do que cumprir as tarefas que lhe foram atribuídas, sem questioná-las, sem julgá-las. O mal se pratica assim, docilmente, dentro da “lei”, seguindo o meio em que se está inserido. E lá se vão milhões de vidas, no caso do Nazismo; ou desigualdades odiosas e privilégios desmedidos, no caso brasileiro.

O texto de Arendt se volta para a análise do mecanismo que leva uma pessoa aparentemente boa e correta a praticar atrocidades indizíveis. Afinal, como pessoas normais, sem predisposição patológica, podem se tornar algozes? Conforme aponta o psicanalista Contardo Calligaris, qualquer pessoa pode deixar de lado sua humanidade não por convicção, crueldade ou mesmo medo de punição, mas simplesmente pela tranqüilidade que encontra na obediência, no sentimento confortável de fazer parte de uma máquina da qual a pessoa pode se sentir uma engrenagem. Pensar individualmente é penoso; mais fácil é renunciar à subjetividade e converter-se num “burocrata”, ainda que eventualmente do mal.

Mas Calligaris, invertendo o raciocínio de Arendt, vai além e indaga o que leva uma pessoa a resistir às pressões do meio e a agir em desconformidade com o padrão estabelecido. Noutras palavras, o que gera a “banalidade do bem”? Por que algumas pessoas conseguem resistir ao horror ou a disparates praticados coletivamente?

Trago essas questões porque, apesar da pouca idade, neste quarto de século de vida assisti a não poucas pessoas mudarem de atitude de maneira inacreditável por conta de uma simples mudança de meio, seja a troca do trabalho, da faculdade ou da cidade de residência. Alguns cidadãos apáticos viraram agitadores corporativos, entusiastas se converteram em amargurados, socialistas se tornaram liberais, monetaristas passaram a desenvolvimentistas, viciados se transformaram em agentes da legalidade e até tarados se viram transmudados em moralistas. E vice-versa.

Afinal, é bom ou ruim ser determinado pelo meio? Ou se seria melhor insurgir-se, eventualmente, contra ele, com todo o desgaste que essa opção acarreta? Em geral, valoriza-se mais a coerência dentro do meio, ou seja, a uniformidade de pensamento com o restante do grupo, do que a coerência individual. Coerência, no fim das contas, nem sempre é tida como algo positivo. Já se disse que uma pessoa coerente é apenas alguém que é hoje tão burra quanto antigamente. Pois é, o meio muda as idéias e a pessoa se torna um coerente do seu grupo. A coerência grupal permite que se durma o sono dos justos – ou seria o sono de Eichmann?

Rafael Dubeux: advogado da união, é bacharel em Direito pela UFPE e mestrando em Relações Internacionais pela UnB

02 comentários

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  1. Tiago Maranhão

    Essa referida “coerência grupal” pode ser entendida também como “tribalização”, um conceito da pós-modernidade trazido pelo sociólogo Michel Maffesoli (francês apesar do sobrenome italiano).
    Um outro cara que pensa sobre o tema, ainda que preocupado com outras questões, é o historiador jurista Gadamer.
    Apenas sugeri os autores pois venho pensando sobre o que foi escrito já há algum tempo. Preciso, contudo, digerir bem esse texto para continuar com meus pensamentos a respeito de “coerência grupal”, “tribalização”, ou coisa que valha.

  2. Sérgio

    De fato, o chamado “determinismo social” é algo que pode passar despercebido. Porém, quando você passa a reparar é realmente assustador. Não falo simplesmente no determinismo como o meio moldando a personalidade do indivíduo como forma de coerência grupal, como uma necessidade de inserir-se numa “tribo”. Mas, o determinismo social também traz o lema da “sobrevivência do mais forte”, daquele mais adaptado ao meio ambiente. Esta é uma lei que todos estudamos na biologia e que parece que olvidamos de aplicá-la quando falamos de nossas relações sociais.
    Assim, este amolduramente do indivíduo ao meio nada mais é que uma reação atávica do “bicho humano”, e somente aqueles que utilizam da racionalidade (característica tipicamente humana), refreando seus impulsos biológicos, é que se podem resistir a esta força natural.

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