Contraponto à Euforia do Etanol
Publicado por Diário A-Ponte em 14.03.2007

“Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.”
Morte e Vida Severina. João Cabral de Melo Neto
Diário A-Ponte:
A cultura da cana apresenta maior produtivivade na região sudeste, em terrenos mais planos que possibilitam o uso de máquinas, com reduzida demanda por mão-de-obra..
De outra parte, a exploração econômica do setor sucroalcoleiro é bastante concentrada em poucos produtores detentores de vastos latifúndios..
Com isso, os possíveis ganhos advindos com o comércio do alcool não influenciarão significativamente a estrutura social do país (provocará efeitos positivos sobre a balança comercial, a exportação de tecnologia e etc, mas não mudará a ordem social)..
Diante disso, deposito maiores esperanças na exploração do biodísel advindo da mamona por cooperativas de pequenos agricultores do nordeste…
Esse projeto sim, pode transformar de verdade a dura realidade de inúmeras famílias que não dispõem de alternativas econômicas..
Caro Tony,
Mas é possível sim regularmentar as tarefas dos plantadores de cana, garantindo melhoria nas condições de trabalho (segurança, higiene, jornada de trabalho, salário-base, etc.).
É preciso registrar que, embora os trabalhadores da cana nordestinos enfrentem condiçõese muito piores do que os do sudeste, não se pode dizer os trabalhadores rurais paulistas estão em boas condições. Apesar do crescimento do agronegócio, são frequentes os relatos jornalísticos sobre condições subumanas dos trabalhadores da cana em diversas áreas de São Paulo e redondezas.
PS: Fantástica a poesia de João Cabral.
Camarada Dubeux, não pretendi dizer (e acho que não disse) que não há abusos na exploração dos trabalhadores de cana na região sudeste..
O foco de meu comentário foi ressaltar que, em função da atual configuração do setor sucroalcoleiro, os benefícios advindos com a comercialização do alcool tenderão a se concentrar em poucos produtores…
Em contraposição, temos a exploração da mamona, que pode realmente ser uma alternativa economica para os pequenos agricultores do nordeste..
O que tony disse é uma verdade, mas temos que considerar também que a baixa produtividade existente no NE, devido ao seu relevo (isto comparando-a com a do sudeste), tem como consequência uma baixa competitividade no mercado, o que já fez com que muitas usinas nordestinas “quebrassem”.
Portanto, ao alavancar-se esta corrida pelo etanol, deve-se atentar que o surgimento de novos produtores competitivos poderá afetar ainda mais a tradicional cultura canavieira do nordeste que, apesar de suas mazelas, ainda é o único meio de sobrevivência de milhares de famílias.