Cinco anos de Revista Literária
Publicado por Marcos Toscano em 12.07.2007
Há poucos dias, em visita a Pernambuco, encontrei uma relíquia dos meus tempos de Faculdade. Estava remexendo o armário em que minha mãe guardou todos os meus papéis velhos, quando me deparei com aquela quase-memória: a primeira edição da Revista Literária. Olhei a caricatura do velho Ariano estampada na capa, as assinaturas de Rafael Dubeux e Victor Cravo na contra-capa, o editorial criativo escrito por Daniel “Bolão”. Fui às minhas modestas tentativas literárias publicadas na revista. Tencionei sentir-me envergonhado pela inocência das minhas composições. Mas não fui em frente. Éramos jovens e sonhadores; e aquela revista é um símbolo da vitória do sonho e da juventude.
Faz cinco anos que a revista foi publicada e lembro muito bem de como a idéia surgiu. Estávamos voltando do nosso estágio voluntário (pelo SAJU) na Penitenciária Professor Barreto Campelo quando expus a idéia para os que vieram a ser, como eu, fundadores da Revista: Mariana Karam, Luana Melo, Daniel Bolão, Carlos Henrique Leite e Francisco de Assis. A esse grupo posteriormente se juntou o amigo André Estima e ainda vários outros colaboradores mais eventuais. Foi uma época feliz de minha vida.
Relendo os contos, as crônicas e os poemas dessa primeira revista, percebo que já havia literatura boa desabrochando nos nossos corações de estudante. Victor Cravo, Marcelo Bruto, Fábio Delmiro, Mariana Dantas, Mariana Karam, Alfredo Falcão etc., eram muitos os jovens escritores de qualidade.
Tive sérias dúvidas se a revista sobreviveria às intempéries políticas da casa de Demócrito. Por um tempo, quando chegaram a alterar seu nome e zerar a sua numeração, temi que a Revista Literária fosse cair na vala comum dos tantos bons projetos que a ganância de políticos medíocres destrói. Mas a Revista sobreviveu e soube que teremos em breve mais um número publicado. Grande alegria para esse pernambucano exilado que talvez esteja envelhecendo precocemente.
Ando bastante curioso para saber se os que participaram do primeiro número ainda escrevem alguma coisa ou se deixaram morrer a literatura que faziam correr pelos corredores da velha Faculdade. Bem sei que o Brasil precisa fazer crescer a economia, gerar mais empregos, reduzir a violenta concentração de renda e combater a criminalidade; mas também precisa de arte. De boa arte. Afinal, nem só de pão vive o homem…
Mando lembranças e abraços a todos os que um dia publicaram e mesmo aos que, sem nunca terem escrito, lutaram pelo lançamento da Revista Literária. Das tantas coisas boas de que pude participar enquanto era estudante universitário, essa pequena ousadia literária é uma das que me deixam mais saudoso e cheio de orgulho.
Marcos Toscano: Marcos Toscano é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e faz Mestrado em Filosofia na Universidade de Brasília.
Muito bom, artigo, Mestre Toscano. Também acredito que a arte deva estar presente em nosso cotidiano, até porque ela é fator de mudança social. Inúmeras obras literárias contribuiram e contribuem de forma ímpar nos estudos de Ciências Sociais (o grande exemplo é Machado de Assis, estudado por inúmeros cientistas sociais, quando buscam explicações para o surgimento e desenvolvimento da classe burguesa no Brasil - leia “Um Mestre na Periferia do Capitalismo”, de ROBERTO SCHWARZ).
Contudo, intriguei-me com uma frase: “Éramos jovens e sonhadores”.
Espero, sinceramente, que todos continuem guardando sua “juventude sonhadora”.
É camarada…. também guardo certa dose de nostalgia dos tempos de militância estudantil… Coincidência que, no dia da prova de procurador federal, conversava com Antonio do Interativa que, em virtude da brevidade do período que passamos na universidade (com exceção dos “estudantes profissionais”), certos projetos e pautas tardam a evoluir, a progredir.. Constatávamos que a agenda debatida hoje ainda se assemelha à de 20 anos atrás…
Não obstante essa intermitência dos projetos (como o exemplo da Revista Literária e do próprio SAJU), a experiência do movimento estudantil e da própria vida acadêmica são essenciaias para uma formação mais crítica e humanista…..
Grande Marcos!
Bendito e saudoso aquele dia, no ônibus da SUSIPE, em que apareceu a idéia da Revista. Lembro-me de como foi difícil e penoso concretizar tão destemido sonho. Mas, valeu muitíssimo a pena! Após ler seu texto, fui mais do que depressa cavucar meu relicário da FDR (uma gaveta tamanho GG abarrotada de recordações) em busca do meu exemplar, tendo o encontrado rapidamente. Quanta alegria senti ao ver que há nele uma dedicatória assinada pelo próprio Ariano Suassuna. É amigo Marcos, bons, ótimos tempos. Também foi uma época feliz de minha vida. Confesso ainda tentar manter vivo meu espírito jovem e sonhador daquela época…
Um abraço.
Sim, camarada, lembro-me também da emoção de que fomos tomados no dia do lançamento da revsita! Foi um momento fantástico! Ótima lembrança!
Só lamento que a idéia de um novo movimento literário na FDR tenha naufragado de maneira tão esquisita, em circunstâncias indescritíveis: só quem acompanhou diretamente sabe.