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BOM DIA, SENHOR! - Formas de tratamento e democracia

Publicado por Luciano Oliveira em 6.03.2008

Há vinte anos fui fazer um doutorado na França. Tornei-me um antropólogo involuntário, condição inevitável de quem passa a viver numa cultura diferente da sua. Isso leva a um duplo estranhamento: primeiro, estranhamos certos hábitos locais porque são diferentes dos nossos; depois, terminamos incorporando o olhar do país onde estamos e começamos a perceber, como igualmente estranhos, certos hábitos com os quais estávamos acostumados no nosso país desde que nascemos.

Os antropólogos chamam isso de “estranhamento do familiar”. É simples. Normalmente achamos o mundo em que estamos inseridos uma coisa natural, que não questionamos. Dito de outro modo, normalmente nós não “notamos” o nosso mundo, como o peixe não “nota” que está dentro d´água! Inversamente, um bagre qualquer, se for dotado da capacidade de pensar, deve “notar”, espantado, que os seres humanos não se afogam, apesar de não terem água para respirar…

Foi morando na França que notei a falta, no Brasil, de uma forma de tratamento universal como eles tinham, independentemente da condição social de uns e de outros: Monsieur para os homens, Madame para as mulheres. Era grande o contraste com o Brasil, onde os empregados do prédio onde morava me tratavam de Doutor, enquanto eu os tratava de Sêo (Sêo Zé!, Sêo Severino!). E sem que isso parecesse estranho a quem quer que fosse.

Não precisava ser nenhum gênio da antropologia para especular sobre algo em que nunca tinha pensado antes de sair do Brasil: a relação que existe entre a maneira como nos dirigimos às pessoas e a estrutura social onde estamos inseridos. Um tratamento universal, como existia na França, denotava um país onde os valores da democracia tinham entrado nos costumes do povo. Do mesmo jeito que todos são iguais perante a lei, todos são também iguais perante a gramática! Num país como o Brasil, onde apesar de uma fachada institucional moderna sobrevivem práticas do arco da velha, nossas formas de tratamento refletiam usos e costumes gerados na época da escravidão ─ em que as pessoas são desiguais por nascimento! ─, e que perduram até hoje.

Pois bem. De uns tempos para cá comecei a observar que está se generalizando entre nós o uso do Senhor e Senhora em relações sociais antigamente regidas por fórmulas as mais diversas, algumas típicas de uma sociedade onde convivem a casa-grande e a senzala, como o Psiu!, outras saborosas, como Moço! para homens, Dona Maria! para mulheres. O Senhor e Senhora, antigamente exclusivos de espaços sociais modernos como aeroportos, começa a ser utilizado nos prédios onde moramos.

Tudo isso me veio à cabeça um dia desses no edifício onde moro. Ao ser apresentado a um novo empregado, dei-lhe “Bom dia!”, ao que ele me respondeu: “Bom dia, senhor!” Continuei o nosso diálogo: “Muito prazer!” E ele me respondeu: “Muito prazer, doutor!” Como costuma acontecer nessas horas, brinquei: “Que é isso? Eu não sou médico, não”. E me pus a matutar o que o leitor leu acima. Conhecendo a nossa história, fico cabreiro e me pergunto se o uso do Senhor significa uma disseminação dos valores democráticos ou simplesmente uma imposição de patrões a empregados subalternos como vigias, caixas de supermercado, entregadores de água e pizza etc.

Afinal, o uso da fórmula, que deveria ser um processo de pista dupla, parece trafegar, nesses casos, num só sentido. Tenho visto pequenos empregados utilizando-o, mas tenho notado que os empregadores continuam interpelando-os à maneira tradicional. Não seria a primeira vez na história brasileira que a adoção de elementos da modernidade são apropriados e adaptados às velhas estruturas. Nos modernos apartamentos já não cabem a casa-grande e a senzala, é verdade, mas continuam cabendo a suíte e o quarto de empregada…

Continuo chamando os empregados pelo prenome ─ os mais velhos, de Sêo. Acho mais autêntico. Afinal, soa ridículo chamar de Senhor um sujeito a quem pergunto, quando quero me livrar de um móvel velho e roído pelo cupim, se ele não quer levar para sua casa. O maior problema é saber a quem pergunto, porque todos querem… Isso não é uma relação entre iguais. Ô Severino!

Luciano Oliveira: Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco

02 comentários

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  1. Sérgio

    Ótimo texto professor. É engraçado como esta discriminação gramatical acaba se arraigando em nosso vocabulário naturalmente, sem que nem mesmo notemos.

  2. Itamar

    Engraçado, professor…eu chamo todos os meus clientes da defensoria pública de Sr. ou Sra., independente da idade. Não consigo me sentir bem chamando-os de “você” etc. Fico pensando que, chamando-os de Sr. ou Sra., contribuo para que os mesmos se sintam mais “cidadãos” (já que eles também sempre me chamam de Dr. ou Sr.). Talvez eu deva estar errado…

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