BBB: O de mentirinha e o de verdade
Publicado por Luciano Oliveira em 14.02.2008
Pus-me um dia desses a ver o famoso Big Brother Brasil ─ carinhosamente conhecido pela sigla BBB. Bastaram-me seis minutos (cronometrados!) para ficar com a impressão de que a humanidade é um empreendimento que não deu certo!
Mas é perda de tempo ficar criticando um bando de desocupados futricando, bolinando-se e exibindo pedaços de corpos sarados. São afinal pessoas típicas do mundo de hoje, buscando inserir-se numa nova categoria social, a das “celebridades”. Pessoas que são célebres porque… são célebres! É verdade que a redundância não é tão simples. Não é qualquer um que pode aspirar a essa categoria. Para entrar é preciso ser jovem, bonito e saber expor na mídia, com alguma convicção, lugares comuns do tipo: “eu adoro meus pais”, “o importante é a beleza interior” ─ etc. A maioria não vai chegar lá. Algumas entrevistas e depois sumiço no anonimato é o destino de quase todos. As mulheres têm mais sorte. As mais gostosas vão posar nuas. Uma ou outra vai virar rainha de escola de samba ou atriz secundária na Rede Globo. E pronto. No próximo ano tem mais.
A futilidade do BBB não merece mais do que seis minutos de crítica. O que merece mais tempo de reflexão é o fato de que milhões de pessoas vêm aquilo. Boa parte da audiência é simples voyeurismo, e sobre isso não há muito o que dizer. Mas há quem faça das patifaria dentro da casa seu pão espiritual, alimento para conversas sociais. Por quê? Um dia desses, numa farmácia, uma balconista com o olho interessado na televisão me disse com a maior naturalidade: “eu gosto da baixaria”. Achei a resposta ótima, e me pus a teorizar.
Talvez, no fundo, todos gostemos de “baixaria”. Quem de nós, balconista ou doutor, não se delicia com fofocas sobre o que se passa entre as quatro paredes da casa do vizinho? Mas somos capazes de sublimar essa curiosidade insalubre alimentando-a com pão de outra qualidade, o “biscoito fino” de que falava Oswald de Andrade. A matéria-prima é a mesma, mas o fabrico é bem diferente. Romeu e Julieta, de Shakespeare, é uma história de amor impossível; Dom Casmurro, de Machado de Assis, é o relato de um adultério que, segundo a interpretação mais recente, aliás, nem teria ocorrido. Amor, morte, ódio, traição ─ são os eternos temas. Mas não há comparação possível entre a poesia dos dois jovens de Verona ou a complexidade das relações entre Bentinho e Capitu, de um lado, e, de outro, o lero-lero de Kleber Bambam com uma vassoura!
Essa diferença é fundamental: enquanto a arte sublima, a cultura de massas rebaixa. Esse fenômeno verifica-se com a própria figura do Big Brother ─ literalmente, Grande Irmão. Como talvez alguns não saibam, essa é uma figura criada pelo escritor inglês George Orwell, num livro publicado em 1949, onde o autor visualizou, num futuro que elegeu como sendo o ano de 1984 ─ título do romance, aliás ─, uma sociedade em que todo mundo é vigiado o tempo todo por câmeras de televisão instaladas em todos os recantos da cidade, inclusive no interior das casas. Escrito num momento em que o comunismo stalinista alastrava-se pelo mundo, Orwell descreve o pesadelo de uma sociedade totalitária, onde já não há mais vida privada e todo mundo desconfia de todo mundo, mesmo dos mais próximos. O Grande Irmão é o déspota cujo olho vê tudo, e pune duramente qualquer veleidade de autonomia.
Isso está no Big Brother de mentirinha! Mas rebaixado ao nível do mero entretenimento da pior qualidade. Enquanto 1984 faz pensar, o BBB apenas alimenta voyeurismo e conversa de salão de beleza. O livro de Orwell tem alimentado reflexões sobre o processo de constituição de uma sociedade de vigilância total que está se realizando sob os nossos olhos. A criminalidade violenta que assola o país é o fermento desse bolo envenenado. Nas grandes cidades, hoje em dia, exemplos desse fenômeno saltam aos olhos: muros eletrificados, “seguranças” nas ruas pagos pelos moradores, vigilância eletrônica em simples residências etc. O melhor símbolo disso é o irritante “Sorria! Você está sendo filmado!” que hoje em dia nos persegue até em banheiro público Sem exagero, estamos vivendo um processo de “big-brotherização” do mundo. Infelizmente, o de verdade. Porque o de mentirinha, pelo menos, podemos mandar para o lugar de onde nunca deveria ter saído ─ o nada ─ desligando a televisão.
Luciano Oliveira: Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco
Pior que isso é uma emissora de televisão que é considerada uma das melhores do mundo apresentar um programa como este.Isso é um ato de ausência do compromisso com a finalidade de uma concessionária de serviço público que deve ser promover, na sua atividade , o bem comum ( lazer de boa qualidade, informação útil, educação etc.). Itamar Dias Noronha
O fato da emissora apresentar o programa é evidente: ele é uma possibilidade de lucros estratosféricos. Eu apenas acompanhei mesmo o primeiro deles. Neste, a ligãção para votar era gratuita e não tinha jabá de produtos no meio do programa. Atualmente, quando vejo um episódio ou outro fico impressionado. São diversos tipos de votação, todas elas com cobranças “irrisórias” e a toda hora aparecem marcas de produtos. O BBB é uma máquina de fazer dinheiro!
Portanto, não me surpreendo que eles exibam o programa, nem mesmo o fato de as pessoas assistirem (nem que seja por curiosidade sociológica). Mas o “status” social que os participantes de repente passam a gozar. Como se fosse algum mérito passar uns anos na academia e fazer cirurgias plásticas para ser escolhido(a) para participar do programa.
Quero dizer que muito aprecio os textos do Prof. Luciano. São realmente ótimos. Concordo com tudo que foi dito. O que me choca é Pedro Bial - uma pessoas esclarecida - aceitar conduzir uma baboseira daquelas…
Excelente texto!
Esse programa nada mais é que o reflexo da cultura de massa, na qual o imediatismo é buscado vorazmente.
O problema é que esse imediatismo não combina com profundidade, gerando com isso falsos ídolos-líderes que precisam ser renovados em espaços de tempo cada vez mais curtos, simplemente pela falta de conteúdo, pelo vazio das relações humanas.
errata:
“uma pessoaS” foi lasca… acho que estou pronto para o BBB 2009!
como é esse bbb de mentira?
eu quero emtrara no bbb do ano que vem pra mostrar que eu não to do bricadeira e arasar com todo o meu talento e diversão e se algum querer macher comigo vai conhecer meu lado sonbrio e baraqueiro me chamo william sou do camargo e quero arazar