A Integração latino-americana frente os desafios de um Desenvolvimento Ecologicamente Sustentável
Publicado por Antônio Cruz Júnior em 7.08.2007
Neste início de milênio, a necessidade de um crescimento equilibrado e compatível com a disponibilidade dos recursos naturais tem se imposto como ponto central da agenda mundial. Até então, as principais lideranças políticas e empresariais do Ocidente vinham negligenciando o tema. Contudo, consistentes estudos científicos e os recentes sinais dados pelos fenômenos naturais evidenciam a imperatividade de alteração dos paradigmas de crescimento até então preponderantes.
A União Européia já tem estabelecido sérias metas de redução da emissão de gases poluentes e, nos EUA, não obstante o desdém inicial com relação à Convenção de Kyoto e a negligência da atual administração, já há importantes segmentos da sociedade reivindicando o desenvolvimento de políticas públicas para o setor.
Nesse cenário, a América Latina figura como um ator privilegiado no contexto internacional, visto que concentra a maior biodiversidade e o maior volume de água doce do mundo, além de alguns países da região, em especial o Brasil, possuir vasta experiência no cultivo da cana-de-açúcar – principal matriz do etanol. Assim, os governos latino-americanos devem ter bem claros e definidos os objetivos e as políticas que têm de traçar em comum a fim de que esta “janela de oportunidade” seja aproveitada como elemento de desenvolvimento econômico e superação dos entraves sociais que, lamentavelmente, tanto marcam a história da região.
Para tanto, é fundamental que despertemos para a necessidade de se ampliar o diálogo e a integração política da região. Infelizmente, um traço característico da política externa local é seu fascínio e sedução para com os países centrais e o completo esquecimento dos respectivos vizinhos. Prova disso são os baixíssimos níveis de trocas comerciais, a precariedade dos meios de integração física, como estradas, ferrovias e portos, os reduzidos convênios de intercâmbio cultural e educacional entre as Universidades, etc.
Ainda assim, o panorama político da região tem se apresentado como o mais propício para evoluirmos no processo integracionista. Pela primeira vez temos a concentração de governantes democraticamente eleitos com firme pensamento em uma cooperação não apenas comercial, mas também política, social e cultural. Até então, a exploração das potencialidades naturais trazia benefícios tão somente às elites nacionais, as quais cumpriam a missão de fiéis prepostos locais dos interesses estrangeiros.
Advirta-se, contudo, que, com os entraves opostos à criação da ALCA, os EUA têm buscado a formação de acordos bilaterais com algumas nações latino-americanas, e dentre elas, o “grande irmão” do norte têm visto o Brasil como um interlocutor diferenciado. A recente visita de W. Bush ao país denota a intenção de estreitamento das relações comerciais e de cooperação tecnológica, especialmente no ramo de biocombustíveis.
A aliança estratégica com os norte-americanos na exploração comercial do etanol pode nos ser, em certos aspectos, bastante interessante, especialmente quanto à transformação do biocombustível numa commodity, o que geraria a ampliação e consolidação de um mercado consumidor e a conseqüente estabilização dos preços.
Todavia, o Brasil não deve se seduzir tão facilmente pelo canto da sereia yankee. A trajetória da política externa americana tem se pautado pelo intervencionismo, unilateralismo, desrespeito às decisões dos organismos internacionais, dentre outros aspectos diametralmente opostos à tradição diplomática brasileira. Igualmente, afora os benefícios econômicos que a exploração do etanol possam lhe propiciar, os EUA não possuem nenhum compromisso para com o desenvolvimento social da região.
Desta forma, não se pode deixar que eventuais acordos firmados com os EUA obstaculizem o necessário diálogo local com as demais nações latino-americanas. O Brasil, mais do que nenhum outro país, deve assumir o compromisso de liderar o processo de formação de consensos sobre temas ambientais: seja pelo peso local de sua economia, pelo relativo grau de desenvolvimento tecnológico, por concentrar em seu território a maior parte da floresta amazônica e pela capacidade de sua atuação diplomática. Ressalte-se, contudo, que esta liderança deve ser exercida com base nos melhores postulados de nossa ação externa: de fortalecimento das instituições multilaterais, de respeito à auto-determinação das nações e às suas tradições culturais e de cooperação mútua.
Antônio Cruz Júnior: Servidor Técnico do Ministério Público de Pernambuco e Graduado em Direito pela UFPE
Belo texto. Quero fazer algumas observações que acredito oportunas. Para isso, tomo a liberdade de identificar dois pontos principais do artigo, que, embora conexos, devem ser tratados em separado. O primeiro deles é a possibilidade de se firmar acordos bilaterais com os EUA e as implicações disso; o segundo diz respeito ao andamento e aos objetivos do processo de integração latino-americana.
Quanto ao primeiro dos pontos, acho que devemos encarar os negócios com os EUA (como com qualquer outro grande país) simplesmente como negócios, sem grandes implicações ideológicas. Queremos vender, eles comprar; perfeito, então. Mas se eles acham que vão comprar álcool e levar de brinde uma subserviência político-internacional, deixemos pensarem isso: é melhor para os negócios. Basta não entregar o brinde.
Em relação ao segundo tema, confesso que as coisas me parecem bem mais complexas. O mapa político da AL não anda tão simples como você quer fazer crer, Tony. Pelo contrário, há uma grande disputa regional em torno de uma mítica liderança do processo de integração e uma grave discussão acerca do conteúdo ideológico que essa aliança teria. Parece-me, ainda, que o Brasil busca capitanear uma união de caráter meramente comercial. Estamos em tudo distantes da cultura dos outros países da AL e não fazemos a menor questão de nos aproximar: não queremos países amigos, mas países sócios-minoritários. Embora essa idéia não seja de todo inválida, não acredito que sobre ela vá se assentar uma grande e duradoura união de países. O que quero dizer com isso é que um dos inúmeros desafios do Brasil é provar que não queremos só lucrar e que somos latino-americanos o bastante para estarmos a frente do processo de integração regional.
Caro Tony,
Parabéns pelo texto. De fato, é preciso ter em mente esta “janela de oportunidade” para a AL e, especialmente, para o Brasil. A força do tema “meio ambiente” tem que ser somada à da pesquisa e inovação e pautar a agenda brasileira. Precisamos fazer uso dos potencial de fármacos da Amazônia, dos biocombustíveis, da experiência com álcool e motores “flex”, etc.
Marcos, quanto à integração da AL, ainda acho - tal qual Tony - que as possibilidades de integração são hoje maiores. A integração comercial é o primeiro passo para aproximar os países, criar redes de contatos, criar infra-estrutura, migração, etc. O país que lidera o processo de integração tem que estar disposto a abrir mão de certas vantagens, e penso que o Brasil tem feito isso sim, por vezes até em compreensível excesso (indústrias argentinas, gás boliviano). O sentimento de “Brasil imperialista” não é disseminado nos outros países latino-americanos, ainda que haja focos minoritários que acreditem nisso.
Engraçado que ninguém aqui comentou acerca da questão Venezuelana.
Ela é um ponto secundário nessa integração da AL?? Ninguém acredita que as intenções do ditador Hugo Chavéz poderá prejudicar o processo de integração?? Caso o congresso brasileiro aprove a inserção da Venezuela no MERCOSUL, será que irá beneficiar ou prejudicar a integração??
Acho que são pontos centrais a se debater…
Acho que H. Chavez realmente pode vir a se tornar um problema. Mas por enquanto ainda não há grandes embaraçoes causados pelo mesmo. Acho que o Congresso não deveria criar empecilhos ao ingresso da Venezuela no bloco, mesmo por que a idéia é aglutinar os países e não estimular os conflitos.