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A debilidade do povo

Publicado por Marcos Toscano em 16.07.2007

O caso Renan demonstra a extrema debilidade do povo brasileiro para fazer valer suas vontades políticas. É um enredo perfeito para ilustrar a incapacidade que temos de impor mesmo os consensos nacionais à classe política.

Renan, presidente do Senado Federal, é acusado de ter recebido dinheiro de Cláudio Gontijo, lobista de uma grande empreiteira, para pagar a pensão de sua filha com a jornalista Mônica Veloso. O senador alega que o dinheiro era dele mesmo e que o lobista é um amigo íntimo que apenas servia de “ponte” para o pagamento da pensão. Como está claro que a remuneração de seu cargo político não é suficiente para cobrir as quantias comprovadamente pagas à Mônica Veloso, o senador afirma que tem outras fontes de renda e apresentou documentos para convencer a todos da boa origem do seu dinheiro.

Segundo Renan, sua grande fonte de renda seria a pecuária. Apesar de ter entregue um calhamaço de documentos como Guias de Trânsito de Animal, cheques de compradores de carne e declarações ao fisco, a defesa do senador padece de uma terrível inconsistência interna: os valores da venda de seu gado estão exorbitantemente acima do que se paga no mercado, seus grandes compradores são empresas fantasmas ou minúsculos açougues de esquina, há cheques repetidos de compradores e o número de cabeças de gado que o senador declara possuir não bate com o número apresentado pelo administrador de suas fazendas. Enfim, é uma defesa furada.

Nesse exato momento Renan e seus cúmplices forçam a tomada de uma série de medidas protelatórias e torcem para que algum evento tire a atenção da imprensa do escândalo. Deve ser o maior torcedor dos Jogos Pan-americanos! Quer que Ronaldo arranje uma nova namorada ou que Cicarelli vá aos banhos cálidos novamente… Mas a cada dia se enrola mais nas novas acusações que vão aparecendo.

Chegamos a um ponto, e é essa a questão que mais me parece relevante, em que ninguém mais no país acredita na inocência de Renan. Os cidadãos da direita e da esquerda, os chamados “intelectuais”, o povo pobre das favelas, os partidos de oposição e os do governo, os atletas do Pan, a imprensa grande e pequena, os pecuaristas do país, os cobradores de ônibus e os ricos economistas, todos os artistas, a família Calheiros inteira e até o próprio Renan (ele mais que ninguém) acreditam que o senador é um grande corrupto. E a pergunta que faço é: e daí?

Nada indica que o senador venha a ser cassado ou, ao menos, veja-se obrigado a renunciar ao seu mandato. Pelo contrário, continua ocupando a sua cadeira de presidente do Senado Federal com toda a tranquilidade do mundo. Vez por outra há uma confusão no Congresso por causa disso, mas coisa pouca. Tudo vai de vento em popa na Nova República das Alagoas.

A pressão pela queda Renan não é uma “conspiração das elites de direita”, nem uma “manobra populista” de algum partido de esquerda. Por incrível que possa ser, nesse barco estão juntos todos os espectros políticos e classes sociais: todos queremos que Renan seja cassado. Mas, enfim, de que adianta a união do povo? No Brasil, que se pretende desenvolvido e democrático, um homem desafia a vontade de toda a população e vai vencendo a briga facilmente… Renan segue fielmente o conselho da Ministra Marta Suplicy: está bem relaxado em meio ao turbilhão de denúncias e vai gozando largamente da debilidade do nosso povo.

Marcos Toscano: Marcos Toscano é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e faz Mestrado em Filosofia na Universidade de Brasília.

06 comentários

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  1. Lara Sampaio

    Esse Renan é um teimoso mesmo! Resta saber o que está por trás da debilidade do povo de impor suas vontades à classe política. Desconfio que um sistema político extremamente mal feito e a ausência/dificuldade de articulação do povo.

  2. Rafael Dubeux

    Esse episódio mais uma vez reforça a necessidade de modificar o sistema de eleição parlamentar, para que haja alguma cobrança sobre os eleitos. No caso do Senado, em que a eleição é majoritária, deveriam suprimir os suplentes e encurtar o mandato para quatro anos.

    Além disso, trago outro assunto mais polêmico: pra que serve o Senado? Para atrasar o processo legislativo?

    Não me venham com essa de que o Senado representa os estados-membros e Câmara, o povo. Não faz sentido algum que Roraima, com menos de 400 mil habitantes, tenha a mesma representação de três senadores que São Paulo, com seus 41 milhões, ou Minas, com seus 20 milhões. Não já é suficiente a distorção existente na Câmara? É muito anti-democrático, já que viola a idéia de uma pessoa, um voto.

    O federalismo não exige a existência de um Senado, mas sim a definição de competências diferentes e claramente delimitadas pela Constituição para a União e para os entes locais. Faz sentido existir o Senado? Tenho a sensação de que só se presta a atrasar o processo legislativo.

    Ressalte-se aqui a importância da casa legislativa para a democracia brasileira. Mas esse papel pode ser feito pela Câmara dos Deputados, à primeira vista.

  3. Liliana Falangola

    É muito bom ver a garatoda botando a boca no trombone!
    Por muitos de nós termos ficados calados, “eles se aproximaram, colheram uma flor do nosso jardim, depois pisaram-nas, mataram nosso cão e roubaram a nossa lua.
    É que não dissemos nada.” Que “eles” não consigam arrancar a voz de suas gargantas nem tirar os seus dedos desse teclado.
    Bravo, Meninos!
    Liliana Nina

  4. Anônimo

    bom dia meus queridos rafa /marcos..tenho dificuldades em traduzir e opinar sobre algumas colocações feitas aqui por vcs ..A questão tributária /econômica em geral /superavit/juros / aglutinação de municípios menores etc.. estão fora de meu alcance para me posicionar ..Qto ao quesito Educação ( avaliação periódica e honesta do ensino nas escolas e demais cursos) a necessidade de criar cursos técnicos de qualidade , q ofereçam condições aos nossos jovens para investir num retôrno mais rápido e necessariamente eficiente para o progresso do país , são claras e compreendidas por mim ..
    PARABENS QUERIDOS ..
    VALEU E VALERÁ SEMPRE O ESFÔRÇO DE VCS !!!!!!!!!
    BOA SORTE .. BJS MM

  5. Camille Desmoulins

    Caro Marcos,
    Como fazer um comentários construtivo ao seu texto sem parecer conservador? É muito difícil. Mas vou arriscar mais uma vez, mesmo sabendo que muitos hão de me compreender erradamente. Eis a minha opinião: tenho horror aos oligárquicos elitistas que têm preconceito ao povo e ao que é popular; mas acho totalmente inadequado, “naïf”, mitificar o povo. Acho que seu texto contribui para desmitificar o povo, e por isso merece parabéns. Tento me explicar citando Rubem Alves, então com 80 anos, em artigo clássico na Folha (http://www.cuidardoser.com.br/ganhei-coragem.htm), com destaque para a última frase da citação: “Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer àquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo. (…) O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesse da comunidade. É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens, e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pela quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O povo, unido, jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos… Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahma, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, á semelhança do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção…” Isso é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.”

  6. Marcos Toscano

    Caros,

    Obrigado pelos comentários. Camille, acho que é justo ter um certo medo das arbitrariedades que se pode cometer em nome da vontade do povo. Mas a regra de ouro da democracia é que a maioria vence. Para impedir que isso nos leve a uma ditadura da maioria, temos garantidas algumas liberdades fundamentais. E em países com uma democracia consolidada, como acredito ser o caso brasilieiro, a vontade da esmagadora maioria da população não nos conduz a medidas arbitrárias, mas a decisões legítimas, como seria a cassação de Renam. Abraço a todos!

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