A China Não Venceu
Publicado por Rafael Dubeux em 28.02.2007
Os BRIC’s e a “vitória” chinesa
A empresa norte-americana Goldman Sachs inventou, alguns anos atrás, a expressão BRIC para designar o grupo de países com potencial para se tornar potência mundial em razão do vasto território e da grande população. Referia-se a Brasil, Rússia, Índia e China.
Em recente artigo publicado no Financial Times, o executivo da empresa Jim O’Neill, criador da expressão, afirmou que o campeonato entre os países acabou: a China venceu fácil. Parece que os integrantes desses grandes grupos empresariais não conseguem perceber outros aspectos do desenvolvimento dos países, a não ser números macroeconômicos de prazo mais curto.
É verdade que a China vem crescendo acentuadamente há mais de duas décadas. Ocorre, porém, que o “modelo chinês” não deve servir de referência para nenhum país. A China vive um regime ditatorial duríssimo, com graves restrições à liberdade de imprensa e às liberdades individuais. Esse assunto não importa para a Goldman Sachs, desde que seus investimentos estejam garantindo retorno financeiro.
O intenso crescimento econômico da China tem provocado gravíssimos danos ambientais. Em grandes regiões do país, os cidadãos têm que andar de máscara por conta das nuvens de poeira que têm se formado no país, o que reduz a incidência solar e atrapalha a visibilidade, provocando trânsito e fechamento de aeroportos. Lagos desapareceram, alguns córregos não têm mais água e mesmo rios outrora caudalosos ficam secos durante alguns períodos do ano. O nível dos lençóis freáticos chineses tem caído em velocidade alarmante (em Beijing, de 1959 pra cá, caiu quase 60m!).
Além disso, as emissões de carbono da China têm crescido de maneira assustadora. Mais de 70% da energia chinesa vem do super-poluente carvão! Em breve, o país ultrapassará os Estados Unidos como maior poluidor mundial. As graves conseqüências da emissão de carbono para o aquecimento global obtiveram destaque da imprensa nos últimos dias. Mas isso também não tem relevância para a Goldam Sachs…
É enorme a dificuldade para manter a coesão social num país que tem 1,3 bilhão de habitantes. Faltam áreas cultiváveis e alimentos para todos. O crescimento econômico chinês é concentrado no leste do país, gerando enorme pressão por movimentos populacionais, afora as conhecidas dificuldades decorrentes da crescente desigualdade social. A corrupção é um problema mais do que crônico na China. Se o leitor pensa que no Brasil há corrupção, não conhece a China, apontada por diversos indicadores como um dos países mais corruptos do mundo. E com o agravante de que o regime ditatorial impede qualquer iniciativa para tornar o país mais transparente.
Mas todos esses fatores não merecem a atenção de corporações como a Goldman Sachs. É provável que seu funcionário Jim O’Neill direcione muitos investimentos para a China por conta do retorno que pode obter no curto prazo. Mas aposto que, se esse executivo norte-americano tivesse que escolher um país para morar, não escolheria a China. Ela não ganhou o campeonato dos BRIC em qualidade de vida, nem deve fazê-lo nos próximos anos.
Os BRIC’s e as possibilidades brasileiras
Aliás, dos BRIC’s, o país que tem mais chance de alcançar o objetivo de garantir bem-estar à população é o Brasil. A Rússia é mero resquício do regime corrupto soviético, completamente dominada pela máfia. Na verdade, o estado russo nada mais é do que uma máfia com armas nucleares. Não existem lá instituições estatais minimamente organizadas. A centralização política é enorme e não há independência mínima dos poderes.
A Índia por sua vez ainda é um regime de castas em pleno século XXI, pratica em larga escala abortos quando o feto é mulher (por conta do forte machismo da sociedade) e, embora tenha áreas de ponta, é o país em que há, de longe, mais miséria entre os quatro. Tem potencial para melhorar, mas está muito distante de garantir condições dignas mínimas para a maioria do seu povo.
O Brasil passou por um período de grande amadurecimento institucional nos últimos vinte anos. A democracia foi restabelecida. O Judiciário é razoavelmente independente. O Ministério Público funciona com inteira autonomia. Possui uma economia diversificada, com indústrias nas mais variadas áreas e população bastante empreendedora. A sociedade possui certa mobilidade social, enorme mestiçagem, integração de raças e de culturas, além de tolerância religiosa – sem que se pretenda com isso negar a existência de racismo no país.
É verdade que, por conta da visão estreita dos que dominaram a área econômica, o país tem crescido a índices pífios nas últimas décadas. Mas isso é conjuntural. Os últimos sinais de reorientação da política econômica são alvissareiros. E a economia pode deslanchar de maneira sustentável e com instituições fortalecidas.
Esse otimismo talvez desvairado com o país não é sinal para a acomodação. É um chamado à ação, para concretizar as enormes possibilidades que se abrem para o país. Mãos à obra.
Rafael Dubeux: advogado da união, é bacharel em Direito pela UFPE e mestrando em Relações Internacionais pela UnB
Rafa, acho que você está comparando coisas diferentes. Acho que a expressão Brics nunca pretendeu definir o melhor lugar para se morar nem o melhor desenvolvimento social, mas sim pretendeu apontar os países com maior potencial de desenvolvimento econômico. E não há vergonha em se fazer isso.
Acho incorreta a sua percepção negativa, de certa forma até preconceituosa, sobre o trabalho da “norte americana Goldman Sachs”, que declaradamente vê o mundo sob a ótica dos investimentos. É evidente que bom mesmo é morar na Gávea, mas, apesar disso, a minha percepção é sim a de que o Brasil está de certa forma travado: não cresce há 30 anos, as melhorias são pontuais, a violência é absurda, a concentração de renda é chocante e a política é canalha.
Desculpe o tom da minha fala, pois certamente ela não tem por fim desanimar, mas sim mobilizar por mudança, coisa que você, como poucos, é capaz de fazer. Mas é preciso ver que a gente (Brasil) não vai nada bem.
Beijo fraterno, JRD
Júlio,
Permita-me discordar. O que Rafael parece estar argumentando não é apenas que a Goldman Sachs não tem coração e deixa de dar atenção às condições de vida nos países ao fazer análises econômicas. Não se trata apenas de demonstrar que crescimento econômico por si só não basta e que devemos lembrar do “social”. O que se discute, a meu ver, é a sustentabilidade do modelo de crescimento.
A Goldman Sachs está cometendo um erro terrível ao dizer que “a China venceu de longe”: toma uma maratona por uma prova de 100 metros. De fato, o Brasil tem sido o BRIC que menos cresceu nos últimos anos. China, Índia e Rússia, nessa ordem, estão bem à nossa frente. Mas se você já assistiu um maratona deve ter notado que aqueles competidores afobados, que saem na frente no início da competição em uma passada ousada e veloz nunca chegam em primeiro lugar. Pelo contrário, costumam ficar no caminho…
China, Índia e Rússia têm crescido em um ritmo impressionante, mas uma análise que observe algo mais que os indicadores macroeconômicos óbvios questionará até quando essa situação se sustenta. Rafael mostra que há graves indícios de que a coisa talvez não vá muito longe.
Por fim, é certo que o Brasil tem problemas sérios e da mais diversa natureza. Mas eu acredito piamente que a gente tem feito avanços significativos que o momento atual é mais que propício para acelerarmos essa marcha da mudança.
Abraço,
Marcos T.
A questão é como nos é dado o ângulo de análise. De fato, se tratarmos de economia, cada país desses, alçado a candidato do desenvolvimento, tem problemas estruturais sérios, sem falar nas questões ordinária do dia a dia; mas, a tosco modo, o toque da marcha primeira do desenvolvimento parece ser construído sob a singularidade da realidade de cada um.
Me questiono sobre a Índia, com seus bolsões de excelência econômica, não seria uma forma de avançar, ainda que sofrível do ponto de vista ético?
Olhando o Brasil, o pessimismo grassa porque não temos projeto, a salvo o PAC, não se discute, tampouco pratica, se deveríamos ser a China que uns dizem seguir o modelo inglês XIX, de se capitalizar com a exportação, ou se com a poupança interna; nós não discutimos nada, pra não mentir, falamos apenas do primeiro passo (câmbio, juros), e depois caímos no abismo do nosso triste passado.
Não que a Rússia tenha projetos (aliás, meus conhecimentos sobre este país são de terceiros, de jornais tendenciosos e de intelectuais nem sempre sinceros). Todavia a China, a grande China - mil perdões, querido Rafael – é igual aos EUA XIX. Ainda que a polícia chinesa seja mais política do que outra coisa (ponto sintomático de possível decrepitude do Estado), as evidências mostram que ela não será a Suécia, ou o Japão, mas que pode ultrapassar o poderio econômico dos EUA , e é isso que interessa ao capitalismo e ao senso de poder político (sob uma visão unilateral), e é um “pode” bem real, vale destacar.
Se quisermos falar de crescimento do Brasil, bom, aí sim, e por razões várias, eu só acho possível sob o ponto de vista plural (e não apenas econômico, ou da busca de ser um expoente econômico), contanto que idealizem meios, propícios à discussão de projetos.
Sem dar idéias direcionadas, que seriam superficiais neste pequeno espaço, socorrem-nos as melhores condições político-econômicas para fortalecer uma indústria quebrada, porque deveras já temos um mínimo de Democracia, e uma classe média ao menos cultural para dar idéias e criticar a elite financeira e de Estado (e é isso que fazemos aqui,rs!), temos uma indústria cultural et cetera; mas, por outro lado, poder, tudo pode, ainda mais quando, de ventos em ventos, as nossas instituições são solapadas, e o complexo da mediocridade toma conta de tudo e de todos, trazendo à tona os nossos ilustres protagonistas da história política.
Pois é… a China ganhou mas não levou
Prezados,
estréio minhas contribuições em estilo lacônico e pontual:
1) pelo que entendo, o conceito de BRIC foi criado justamente para avaliar crescimento, e se alguma competição for estabelecidas entre eles, deveria ser de fato a do crescimento. E embora não seja eu um banqueiro ou simpatizante, duvido que o objetivo do Goldman Sachs tenha sido estabelecer um índice de qualidade de vida.
2) felizmente, no entanto, este índice já existe, e se quisermos dar continuidade à discussão sobre quem está ganhando a corrida neste quesito, seria saudável analisá-lo. Tentarei formatar em um quadro a posição de cada um dos BRIC no ranking de IDH para os últimos três anos em que o índice foi calculado. Tomara que saia legível:
2004 2003 2002
Ru 65 62 57
Br 69 63 72
Ch 81 85 94
In 126 127 127
Permitirei que cada um tire suas próprias conclusões, mas vejam: Rússia está na frente mas só piora; Brasil oscila em segundo lugar; China come pelas beradas e começa a ameaçar o Brasil; Índia, uma retardatária estagnada.
São absolutamente pertinentes as ressalvas ao ’sucesso’ chinês contidas no texto. Trata-se de um modelo incompatível com o padrão político-social democrático e garantidor das liberdades individuais que é, para nós, um fim em si mesmo.
Ademais, e na contramão de um certo senso coletivo internacional, a China utiliza-se dos mais crus princípios de ‘realpolitik’, consagrando o interesse nacional como único norteador das ações estatais. Quanto a isso o paralelo traçado por Alfredo com os EUA é perfeito.
Agora, há que ser atestado também, que o ’sucesso’ chinês e indiano não está restrito aos fantásticos índices de crescimento. Estes países têm logrado reduzir substancialmente a pobreza, crescem com inclusão, e isso, naturalmente, abala os alicerces sociais atuais. Quais serão os desdobramentos internos desse boom fica difícil de se prever.
Na minha visão, estes países estão colocando em marcha , com todos os defeitos, mas com uma clareza e obstinação impressionantes, o projeto de país que forjaram para si. É isso que nos tem faltado. Talvez sejam as condicionantes da democracia, quem sabe. Mas o fato é que a nossa clara superioridade institucional não nos tem bastado para atacar as nossas mazelas sociais.
O Brasil é o país das contradições: somos a décima economia do mundo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_do_Brasil), ao passo que somos o 8º país mais desigual (em uma lista de 124 países, ficamos em 117º, cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pa%C3%ADses_por_igualdade_de_riq ueza). Em um cenário como este, fica claro qual é o entrave.
As elites brasileiras são burras e não estudam história: para desenvolver-se é preciso distribuir renda para criar mercado consumidor. Injetar R$ 1,00 na classe “A” não tem qualquer efeito. Mas este mesmo Real nas classes “C” e “D” se multiplica… Distribuir renda não ´´e só crescer muito: é crescer muito com desenvolvimento econômico.
A China tem tido um crescimento econômico vultoso, um desenvolvimento econômico baixo e um desenvolvimento social pífio. Este não é um caminho viável, como tem sido muito bem dito aqui, mas é o caminho que a China tem encontrado e no qual tem prosseguido. É o caminho DELA e foi ELA que o escolheu.
No Brasil esquece-se que somos excepcionais (no sentido de bons e no de diferentes) e que fórmulas importadas terão efeitos totalmente diferentes aqui. Fora que estas fórmulas nos são oferecidas com décadas de atraso.
O que nos é oferecido como um modelo de desenvolvimento pelos países desenvolvidos é uma forma de eles “chutarem a nossa escada”*: eles já subiram e agora querem ficar nos olhando lá de cima.
Talvez o PAC veja um começo. Pelo menos um posicionamento foi tomado. É esperar para descobrir se para o bem ou para o mal.
*variante da expressão de Friedrich List, usada por Ha-Joon Chang, no livro “Chutando a Escada”.